O MENSALINHO DE MARIN
Para asfixiar a oposição e eleger seu sucessor, o presidente da CBF distribui mesada de 100.000 reais a cartolas-eleitores
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é uma entidade privada que administra a maior paixão do povo brasileiro. Dispensada de ter de prestar satisfação a órgãos de controle, ela tem faturamento milionário (mais de 300 milhões de reais por ano, quase tudo fruto dos jogos da seleção) e ainda organiza os campeonatos que geram receitas de 2,3 bilhões de reais a clubes e patrocinadores.
Toda essa máquina é administrada como um velho feudo político. Por 23 anos, Ricardo Teixeira reinou na confederação com poderes de imperador: mandou e desmandou sem nunca ter tido oposição. Em março do ano passado, acossado por denúncias de enriquecimento ilícito, renunciou ao cargo e passou-o ao seu vice José Maria Marin.
Aos 81 anos, Marin foi governador nomeado de São Paulo, no período da ditadura militar. Logo ao assumir a CBF, foi flagrado embolsando uma medalha que seria entregue a um campeão de um torneio júnior. O gesto foi mais do que um, digamos, lapso moral – foi um cartão de visita.
Sem a mesma unanimidade de Teixeira e com dificuldade para fazer seu sucessor, Marin agora apela para uma arma bem conhecida do universo da política fisiológica de onde veio: para manter seu grupo no cargo, ele distribui verbas e benesses aos presidentes de federação, em uma espécie de mensalinho do futebol.
As eleições da CBF estão marcadas para abril. Como não tem saúde para se reeleger, Marin apoia o secretário-geral da entidade, Marco Polo del Nero, também presidente da Federação Paulista de Futebol. Há 47 eleitores: os vinte clubes da primeira divisão e os presidentes das 27 federações. São esses os alvos de Marin.
Na gestão Teixeira, havia um repasse mensal às entidades, que foi de 8 000 reais a 30000 reais. Com Marin, a verba subiu para 50 000 reais. Em outubro, dobrou. Sem nenhuma razão além da eleitoral, cada federação recebe nos últimos três meses do ano 100000 reais. O dinheiro é chamado de “mensalinho da CBF”.
Os presidentes também são agraciados com viagens internacionais, patrocínio de torneios estaduais e financiamento a times pequenos para que disputem a terceira e a quarta divisões. Todos foram convidados pela CBF para a Olimpíada de Londres. No próximo dia 9, assistirão na Costa do Sauípe (BA), com um acompanhante, ao sorteio dos grupos da Copa do Mundo.
Os eleitores também se revezam como chefes da delegação brasileira nos amistosos internacionais. “As portas da sala de Ricardo Teixeira não ficavam abertas como as de Marin. Todos os nossos pedidos são atendidos”, conta um presidente de federação.
Com o mensalinho, Marin tenta impedir que um candidato de oposição tenha o apoio por escrito de oito federações e cinco clubes, condição necessária para registrar uma candidatura. O objetivo é que Marco Polo seja o candidato único, o que evitaria traições em uma eleição secreta.
O currículo de alguns cartolas ajuda a explicar por que o futebol continua nas mãos de Marins e Teixeiras. O presidente da Federação Amazonense, Dissíca Tomaz, acumula multas de 1,5 milhão de reais por irregularidades em sua gestão como prefeito de Eirunepé, de 2005 a 2008.

FESTA ENGAJADA — Jogadores do Cruzeiro protestam no jogo do título (Foto: Leo Simonini)
O presidente da Federação do Amapá, Roberto Góes, foi preso por desvios de verba quando era prefeito de Macapá. O do Tocantins, Leomar Quintanilha, é alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal por desvio de 25 milhões de reais, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e superfaturamento de obras.
Todos recebem o mensalinho, mas também são cortejados pela oposição, representada por três potenciais candidatos: Rubens Lopes (da Federação do Rio), Francisco Novelleto (Federação Gaúcha) e Andrés Sánchez, ex-presidente do Corinthians e ex-diretor de seleções da CBF. Sánchez, filiado ao PT, conta com o apoio do governo e do ex-presidente Lula.
Mas nem tudo é velho nessas eleições. Na luta contra os desmandos do futebol, novos personagens surgiram: os jogadores. Na rodada desta semana do Campeonato Brasileiro, na qual o Cruzeiro garantiu o título por antecipação, os jogadores cruzaram os braços em protesto contra a “falta de diálogo da CBF” com o Bom Senso FC, grupo de jogadores que cobra melhores condições de trabalho.
Uma manifestação como essa é coisa inédita no futebol brasileiro. Terão as jornadas de junho chegado aos campos?